Sim. Tudo são grandes construções sociais. Tudo. Tempo e espaço constituindo normalidade e anormalidade nas interrelações hierárquicas entre as máquinas orgânicas movidas por reações químicas e sentimentos que somos nós.

Construções sociais que existem porque os sentimentos existem. Afinal, estes são os nomes que demos a certas reações orgânicas: as psicoquímicas. Afinal, as realidades também são constituídas palas palavras e pelos valores que damos a elas – Baktin, Saussure e uma galera aí concordam comigo. Afinal, se acreditamos na Ciência, em divindades e energias, na notícia da TV, em predisposições dos astros, na supremacia da Razão, porque negar os sentimentos (ainda que estes fossem meras invenções, coisa de que duvido)?

Amor, ódio, alegria, tristeza, entusiasmo, apatia. Todos esses e outros sentimentos existem. Materialmente no funcionamento desses amontoados de células que para existir precisam progressivamente se matar (sabia que o mesmo oxigênio que nossos pulmões devem absorver é o oxigênio que oxida e envelhece a nossas células e, portanto, a nós) e também enquanto força propulsora capaz de revolucionar.

Construiu-se um mundo em que certas reações psicoquímicas são necessariamente boas e outras, necessariamente ruins. Algumas a serem perseguidas a todo custo, outras a se fugir no primeiro carregamento de psicotrópicos que nos indicarem. Criou-se um mundo doente, com preceitos que nos deixam cada vez mais sobre pressão. No mundo em que vivemos, pouco nos liga verdadeiramente a outras pessoas, às realidades a nossa volta, ao mundo material e, principalmente, ao não material. Cigarro, bebida, drogas lícitas prescritas por médicos ou ilícitas perseguidas pelos cachorros. Saídas para essa desconexão.

Criamos uma sociedade doente, doente demais. E, pensamos que nós somos os doentes por querer nadar contra a maré; por pensar que, se há o direito à vida, também deve existir o direito a decidir sobre nossa própria morte; por querer mudar o mundo; por amar como amamos.
Por vezes, vejo vontade de desistir. Só mais uma na sociedade que criou regras com as quais discordo, desejos que não são meus, necessidades supérfluas, angústias sufocantes. Se não tiver todas as certezas que a Razão pode oferecer, não terei um bom futuro (entendam, dinheiro). Sem este, não terei como comprar. Sem propriedade privada, não tenho nada, não serei nada. Como não querer desistir? Mas não vou, nunca, desistir de amar.Não vou, nunca, desistir de sentir – ainda que sejam os sentimentos “ruins”. É sentindo o mundo que poderei mudá-lo.

Ainda que nos digam que é preciso casar, é preciso suportar, é preciso odiar, é preciso substituir nós todos. Que é preciso salvar os Estados e esquecer nossos estados d’alma, que é preciso crer em Deus e pagar as dívidas, que é preciso comprar e esquecer fulana. Ainda que chegue o tempo que em que dizer “Meu Deus!” de pouco ou nada servirá. Ainda que os corações sequem ou que seja necessário levar nos ombros o peso do mundo. Ainda que todas as minhas reações orgânicas digam que é impossível, eu dançarei meu bolero.

Como Drummond estou presa à vida e a quem, de mãos dadas, nessa imensidão me acompanha. Taciturnos e esperançosos. Capazes de ver flores onde ninguém mais acredita. Nossos corações às vezes pequenos são incapazes de levar o mundo e os homens, por isso precisamos das ruas e de todos, por isso nos despimos e gritamos.

Não, não sou a menina que sempre vê o lado positivo. A vida pesa e leva a reflexões que me fazem, às vezes, perder a fé em tudo. Desistir e viver fria me bastando em mim às vezes parece oferta irrecusável de black friday. Mas não consigo viver fria, os hormônios continuam sendo produzidos. Não posso viver fria, é preciso ser faísca de mudança.


Texto publicado originalmente na Revista Pólen

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