Mulheres de diversas religiões unem suas crenças ao Feminismo, transformando seus espaços de fé e seu cotidiano

Por Ingrid Campos e Marcela Tosi

Publicado em 12.dezembro.2017 na página do Mídium – Comunicação em Movimento

Disponível aqui

Durante a Idade Média, centenas de mulheres ditas “bruxas” foram perseguidas pela Igreja e, ainda hoje, as manchetes estampam o ódio que “homens de fé” dirigem às minorias. Diversas práticas devotas colocam as mulheres em posição subalterna. Temas centrais para as lutas feministas, desde a igualdade entre gêneros até a descriminalização do aborto, mexem com dogmas religiosos. As histórias sagradas, assim como as histórias das nações, são contadas e protagonizadas por homens. Diante disso, religião e Feminismo são modos de viver opostos e incapazes de coexistir, certo? É questionando esse senso comum que chegamos à nossa reportagem de hoje.

teologia feministauma corrente de pensamento que propõe uma reflexão a respeito do papel e da visão da mulher nos livros sagrados, ganha corpo acadêmico e passa a ser incorporada nas práticas cotidianas, no Brasil, desde a segunda metade do século passado. Do Oriente ao Ocidente, nas religiões cristãs ou não, mulheres propõem realidades de equidade sem abrir mão de sua fé. Na atualidade, as redes sociais têm unido e amplificado as vozes dessas mulheres. No Brasil, a página do Facebook Católicas pelo Direito de Decidirreúne 40 mil adeptos. O grupo fechado Feministas Cristãs reúne cerca de 5 mil membros e a comunidade Evangélicas pela Igualdade de Gênero mobiliza quase 3 mil mulheres.

Vivências

Conversamos com algumas mulheres que nos contaram como se dão seus movimentos entre o Feminismo e suas religiões, os dilemas e as convergências com os quais convivem no dia a dia.

Louise Santana, 27 anos, evangélica

Filha de pastores, Louise explica que o interesse em organizar um grupo feminista na igreja veio de dentro de casa:

A minha visão de feminismo começou a ser desenhada por entender as mulheres como pessoas importantes e isso foi a partir de uma leitura muito generosa que minha mãe fez [da Bíblia a ela]

A pedagoga e estudante de Direito declara que os membros de sua igreja, Assembleia de Deus Templo Central, fazem uma leitura desonesta da Bíblia, excluindo as mulheres de destaque no livro. “Nós temos citadas na Bíblia mulheres que foram juízas, como Débora, presente na época em que Israel ficava sem rei e levantavam-se juízes que julgavam o povo e que dirigiam os reis […] Nós temos a figura de mulheres guerreiras, como Jael, que foi uma mulher que matou um dos reis que estavam contra o povo de Israel.”

Louise já sofreu agressão física e psicológica do ex-marido, com quem se casou aos 20 anos. Por essas e outras, ela acredita que a Igreja, que é um espaço social, não é uma instituição hostil por si só, mas é produto de um reflexo social. “Existe machismo dentro da igreja porque existe machismo na sociedade”, resume .

Infelizmente, os ideais feministas que florescem entre as mulheres da sua igreja ainda não foram suficientes para a consolidação de um movimento bem organizado. Muitos são os fatores para isso, entre eles, o fato de que as posições de gestão de maior visibilidade e autoridade ainda são destinadas aos homens.

Diante disso, ela procura fazer palestras e promover diálogos entre os fiéis evangélicos, fazendo o que ela chama de disputar discursos e trazer entendimentos progressistas. Sua atuação não se limita aos espaços físicos e se expande também para a internet. Louise tem um canal no YouTube, junto com Téssie Reis, outra jovem feminista e kardecista, no qual discutem temas sociais e políticos.

Karine Garcêz, 43, muçulmana

“O meu feminismo foi aflorado através da conversão à religião islâmica”. Aos 28 anos, Karine, nascida em Redenção — interior do Ceará — e que esteve desde a infância engajada em questões políticas ao lado do pai, se viu nas lutas feministas após se converter ao Islã e buscar entender os direitos das mulheres dentro dessa religião. Hoje, ela analisa que muitos discursos conservadores que trazia da própria criação foram desconstruídos pelos estudos islâmicos e feministas em que se empenha desde então.

Quando se trata de viver sua religião na cidade, Karine conta que, apesar de haver centros islâmicos em Fortaleza, escolhe viver sua religiosidade sem se envolver com os muçulmanos que aqui vivem, os quais considera conservadores e, muitas vezes, ignorantes. “A religião islâmica você pratica no dia a dia, todos os dias. Você sai na rua, você luta pela garantia de justiça social, tudo isso faz a religião islâmica.” Como explica, o Islã é uma religião que estimula o pensamento político e garante os direitos de todos, inclusive das mulheres.

Para Karine, “não é o que você coloca nem é o que você tira do seu corpo, é o discurso social que posiciona as mulheres no lugar de opressão”. A fotógrafa e internacionalista conta que passou a usar o véu não por uma imposição, mas que se converteu e decidiu usá-lo por uma questão de identidade religiosa e política. “Quando eu comecei a usar o véu, começaram os ‘bombardeios’, as pessoas acharam que eu não tinha mais capacidade de decidir sobre a minha vida.” A partir daí, Karine se interessou a estudar sobre as mulheres no mundo árabe e ao redor do mundo. “A religião islâmica me abriu muito para eu pensar e refletir, para eu abrir minha mente para esse discurso que pode ser mesmo empoderador da mulher”, complementa.

Inserida nos movimentos feministas brasileiros, manifestações de rua e reuniões, Karine procura quebrar paradigmas que muitas vezes a colocam em uma “dupla jornada” de afirmação:

“Antes as pessoas nem me compreendiam como uma feminista, porque eu era muçulmana e usava o véu. Na concepção de muitos, eu não podia ser feminista porque eu tinha uma religião. Isso muda participando, conversando e explicando”

Em meio à discussão sobre temas atuais e a PEC 181, a fotógrafa explica que nenhuma das quatro escolas islâmicas proíbe o aborto nos casos que a Proposta de Emenda Constitucional procura proibir no país, divergindo somente no tempo em que poderia ser realizado. Para ela, o que muitas vezes acontece é pessoas já machistas e conservadoras utilizarem os argumentos religiosos que lhes servem e esquecer os ensinamentos como um todo, deturpando a religião. “Não é a religião que oprime, mas é o homem. E sempre será o homem. Simone de Beauvoir já falava isso”, afirma.

Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), ONG atuante no Brasil desde 1993

A partir da divergência de uma visão religiosa que pune e restringe a sexualidade humana, especialmente a das mulheres, católicas reafirmam sua identidade religiosa aliando-a ao feminismo. No Brasil, a organização não-governamental Católicas pelo Direito de Decidir (CDD) foi fundada em 1993. Desde então, atua em uma rede que originou-se nos Estados Unidos na década de 1970 e hoje está presente em todo o mundo. Seu objetivo? Construir um “discurso ético-teológico feminista pelo direito de decidir que defenda a autonomia das mulheres, a diversidade sexual, a justiça social e o direito a uma vida sem violência”, como está expresso em seu site.

A atuação da CDD se dá tanto nas interpelações que fazem junto aos poderes legislativo e judiciário com abaixo-assinados, por exemplo, como estando presentes em oficinas, seminários e congressos que organizam ou para os quais são convidadas, além das relações que estabelecem com pastorais sociais. Uma preocupação da Católicas é com pesquisas de opinião para fundamentar as reivindicações de políticas públicas. Com as recentes discussões sobre gênero em toda a América Latina mostrando posicionamentos conservadores da sociedade, esse é um tema também abarcado pela ONG. Em estudo divulgado este ano, a CDD e oo IBOPE revelaram que 84% da população brasileira apoia a discussão de gênero nas escolas. Para Rosângela Talib, psicóloga e mestra em Ciências da Religião e uma das coordenadoras da CDD desde 2001, esses dados reafirmam sua posição de que mudanças sociais devem ser respeitadas e respaldadas pelas políticas públicas.

Esta mesma pesquisa mostrou que 64% dos brasileiros entendem que a decisão a respeito do aborto deve ser da própria mulher, algo que a CDD defende desde o seu início. A ONG busca desculpabilizar as mulheres por suas decisões, adotando a teoria do probabilismo, corrente do cristianismo cujo princípio é o direito de fiéis de discordarem da hierarquia eclesiástica em questões morais se suas argumentações estiverem baseadas em uma consciência de fé esclarecida.

“Não acreditamos em uma religião punitiva. Se os ensinamentos da Igreja Católica sempre propuseram o acolhimento do outro sem julgamentos, tudo o que devemos fazer enquanto católicas é acolher e apoiar o outro”, comenta.

Para ela é inconcebível que questões privadas e individuais possam impedir a cidadania e os direitos.

Nos recentes protestos contra a PEC 181, um cartaz da CDD ganhou destaque em todo o Brasil: “Até Maria foi consultada para ser mãe de Deus. Católicas na luta pelo aborto legal e seguro!l”. Talib conta que esta é uma frase usada desde o início pela ONG, mas que nunca a tinham usado tão publicamente. Reações positivas e negativas vieram de dentro e fora da comunidade católica.

Talib explica que encararam essas reações como naturais, dado que a própria Igreja não é um todo monolítico e homogêneo. Dentro da instituição, posicionamentos diversos convivem entre consensos e dissensos: “parte da comunidade católica nos aceita, mas parte mais conservadora não nos vê com uma voz verdadeiramente católica e não apoia essa evolução das discussões sociais”, conta. A pesquisadora diz ainda que “sempre nos afirmamos como uma voz dissidente. Nossa preocupação básica não é a Igreja, mas as mulheres. Nosso objetivo não é estar dentro da estrutura da Igreja, mas interpelá-la em favor das mulheres.”

Como não ir contra os ensinamentos de sua religião e exercê-la de forma saudável

Apesar de todas as divergências que essas mulheres encontram contrárias a sua militância, ainda é possível encontrar líderes religiosos que abraçam esses movimentos. É o caso de Jamieson Simões, pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Independente. Nela, não existe um movimento feminista sistematizado, no entanto, a pastora titular da casa, Rosangela Santana, promove o debate de gênero a partir de sua leitura de vida.

 
Para Jamieson (à esquerda), os discursos e práticas feministas são necessários para superar as condições de violência atuais. À direita, Ingrid Campos. Imagem: Thayná Facó/Equipe Mídium

“A pauta do movimento é muito legítima, né? Tem crescido o número de assassinatos de mulheres, tem crescido também os crimes de ódio contra a população LGBT e a religião que eu reivindico se afirma a partir do amor incondicional ao próximo, a minha religião precisa por uma questão de coerência e ética (grifo nosso) assumir que nós precisamos superar as condições que geram essa violência”, declara Jamieson. Segundo ele, as concepções machistas não “encontram ressonância no ethos das escrituras”.

É importante naturalizar discursos pró-feminismo dentro de instituições tão patriarcalistas para que os indivíduos que persistem em discursos opressores percebam que o machismo que eles cultivam não se sustenta nos seus respectivos livros sagrados. Além de contribuírem para a manutenção de um sistema de opressão estrutural que, muitas vezes, acarreta consequências criminosas, e que vai contra com o que o seu divino, seja qual for, espera deles. Com a licença, que feio, hein?

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