Brendda Lima conta sua história, e a de tantas outras mulheres quadrinistas, em um cenário marcado pelos grandes selos e pelo machismo. Realidade que aos poucos vem mudando

 

Publicado em 01.março.2018 na página do Mídium – Comunicação em Movimento

Disponível aqui

 

Os quadrinhos, como a sociedade em geral, formam um espaço histórico de dominação masculina e isso não é novidade para ninguém. No mundo todo, salvo raras exceções, como a iraniana Marjane Satrapi, até pouco tempo atrás, era somente a partir da visão masculina que a mulher se via nas artes gráficas. Foram diversas as representações femininas criadas por homens, desde a inteligente e crítica Mafalda (de Quino) até as super heroínas sexualmente objetificadas e seguidoras de um padrão de beleza absurdo. Essa situação, no entanto, vem mudando com uma profusão de mulheres conquistando espaço e abrindo caminhos.

Brendda Lima está entre essas mulheres. Nascida em Aracati, a 150 km de Fortaleza, a jovem mantem contato com os quadrinhos desde a infância. Seu avô comprava jornal e era assim que ela tinha acesso às tirinhas do Maurício de Souza, do Capitão Rapadura (do cearense Mino), do Zé do Aurim (do também cearense Guabiras) e do Denilson Albano. Na adolescência, chegaram os comics e as graphic novels de super heróis:

“Eu lembro que meus primeiros quadrinhos na adolescência foram dois ao mesmo tempo: o The Umbrella Academy [criada em 2007 por Gerard Way e pelo brasileiro Gabriel Bá], porque eu era muito fã de My Chemical Romance, e Sandman [de Neil Gaiman]. Essas duas produções me fizeram ter uma visão muito maior do que são os quadrinhos. Até o momento que eu descobri que existia um quadrinho da Batgirl, minha personagem favorita do universo da família Batman. Eu devorei aquilo com uma avidez gigantesca”

Brendda se mudou para Fortaleza em 2010, a fim de cursar Design de Moda na Universidade Federal do Ceará (UFC), e, em 2014, começou a desenhar tirinhas “pra valer”. Logo no primeiro semestre na UFC, participou do evento +Design Ceará, onde conheceu “gente que estava em contato com esse amplo universo do design e que me mostrou outras possibilidades. Foi aí que eu pensei ‘É isso que eu realmente quero fazer, eu quero desenhar’”. Esse encontro com a ilustração foi uma quebra para a jovem que viera para a capital pensando que trabalharia com moda e teria sua própria marca de roupas. “Descobri que não gostava da dinâmica de mercado de moda, apesar de adorar a lógica da inovação. Acabei focando na parte do curso que eu mais gostava, que é o desenho”, explica.

 

 

Se aproximar da história de Brendda como quadrinista é também se aproximar da cena dos quadrinhos em Fortaleza. 2014 também foi o ano em que aconteceram dois importantes eventos com foco em discutir a nova relação de consumo e a produção de quadrinhos e ilustrações feitos por mulheres e para mulheres: em Fortaleza, o [Des]enquadradas e, em Belo Horizonte, o Lady’s Comics. Coletivos e grupos movimentam a cena local, como o coletivo Arminina (que surgiu do [Des]enquadradas), o Coletivo Nozis, o The Comics Cafe, o Coletivo Fubá e o selo Netuno Press, do qual Brendda faz parte. Eventos como a Feira Livre de Quadrinhos e os artists’ alley, além dos espaços de formação como a Oficina de Quadrinhos da UFC e a Escola Porto Iracema das Artes, também possuem grande importância nessa profusão recente.

No meio de tanta gente, estavam lá cada vez mais as mulheres. Dhiow Barroso (da página Adivinha Dindi), Sirlanney Nogueira (a Magra de Ruim), Dharilya, Paloma Cabral (da página Tartaruga de Óculos), Milena Fernandes, Natália Prata, Milene Fernandes, Elisa Azevedo e Mariana Marrie são algumas delas. E Brendda foi mergulhando cada vez mais nos quadrinhos, a ponto de ter vontade de publicar suas próprias histórias, sempre relacionadas ao empoderamento feminino, questão central para a sua própria construção como ilustradora.

Ela conta que foi “graças às minas que eu conheci nos grupos de empoderamento, como Selfless Portraits das Minas e Arte das Mina, que passei a enxergar meu trampo como portador de mensagem. Estou tentando incorporar cada vez mais minhas ideologias aos meus desenhos — é um processo de autoconstrução, mas está começando a dar certo”.

 

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Brendda nos recebeu em sua casa para um bate-papo sobre o seu caminho nos quadrinhos. | Imagens: Equipe Mídium / Cindy Damasceno e João Victor

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Como Sobreviver à Terra da Luz, criação conjunta com Débora Santos, foi o primeiro quadrinho lançado por Brendda. |Imagens: Equipe Mídium/ Cindy Damasceno e João Victor

Seu primeiro quadrinho publicado foi Como Sobreviver à Terra da Luz, com roteiro de Débora Santos e lançado pela Netuno Press. Trata-se da história de um grupo de amigas com biotipos diferentes, que são bruxas roqueiras a caminho de show e ficam presas em uma kombi na avenida Bezerra de Menezes. Inusitada e ainda assim muito próxima da realidade, a história traz identificação regional e de gênero em uma narrativa fluida e traços característicos das ilustradoras.

“Eu e a Débora queríamos retratar mulheres que a gente conhecia. Com personalidades palpáveis, com corpos que a gente conhecia. Foi normal ter mulher gorda ou que fala palavrão ou que fica esquentada e no outro momento está super de boa, porque a gente conhece pessoas e não daria para ser de outra maneira. É isso que me deixa desconfortável em relação a alguns outros tipos de produções feitas por homens, de certa forma eles idealizam tanto as personagens mulheres que acabam fugindo do que é próximo da realidade”

Algum tempo depois, tendo produzido Silêncio (cujo texto foi adaptado de um conto de Pedro Gomes) e colorido a série Mayara & Annabelle, chegou a hora de se aventurar em um quadrinho só seu. Nascia o Manual de sobrevivência à vida adulta. De forma lúdica e extremamente reveladora, acompanhamos um dia na vida da personagem que vive entre os conselhos de nuvens em formas de gatinhos fofos (ou gatinhos fofos em forma de nuvens) e os desafios que a tão sonhada vida adulta pode proporcionar.

Uma HQ que começa com sua personagem afirmando “Crescer é bem doido, sabe? Uma hora você tá tomando leite com Nescau, na outra, você tá enlouquecendo com as despesas da casa”, nos traços e cores característicos de Brendda, só poderia trazer consigo o que deixamos que ela mesma nos conte:

 

 

Participar de coletivos e eventos de quadrinistas brasileiras é, como conta Brendda, um tipo de suporte “maior e mais importante para que a gente aprenda e tenha coragem de mostrar o que faz do que estando em grupos mistos. Querendo ou não, de uma forma ou de outra, os caras chegam pra gente com um olhar ‘Ah, massa, você faz quadrinho, você é menina, beleza! É… deixa eu ver outra coisa.’(risos)”. E, assim, somos apresentadas ao machismo nos quadrinhos, em expressões que vão além da já conhecida hipersexualização das heroínas.

Nos mesmos jornais em que Brendda conheceu suas primeiras referências nas tirinhas cearenses, eram publicados quadrinhos americanos traduzidos e os estereótipos femininos estavam lá. “Querendo ou não, a Liga da Justiça, os desenhos do Batman e essas produções todas traziam mulheres com os mesmos corpos, mudava só a cor do cabelo e o uniforme (risos)”, conta.

“Mas eu não ligava muito. Eu acabava me divertindo muito mais com as produções brasileiras. Eu e o meu irmão colecionávamos várias e várias tiras do Guabiras. Existia um quadrinho do Denilson Albano com o mote ‘garotos não choram, mas ficam passados’, sobre um menino gay que estava se descobrindo. Era curiosa a forma como ele falava sobre isso e aí, como era próximo do meu universo, eu me divertia para caramba vendo aquele jeito de falar, por exemplo, muito próximo do nosso jeito de falar cearense.”

Já como ilustradora e nos quadrinhos, a jovem conheceu outras faces (muitas vezes tidas como mais banais) do machismo:

 

O Prêmio HQMix de 2015 ganhou repercussão negativa entrando para a lista de “expressões do machismo que temos de lidar todos os dias™”. Considerado o “Oscar dos Quadrinhos e Humor Gráfico no Brasil”, o evento publicou em sua página oficial uma série de imagens como convites para cerimônia de entrega dos prêmios. Entre as peças, foi publicada a foto de uma modelo de biquíni que, de costas, sensualiza para o espectador. Diversas e diversos profissionais e coletivos manifestaram seu repúdio e, somente após dias, a organização retirou a imagem, aparentemente sem entender o descontentamento. Em outros eventos, episódios como o que aconteceu no estande expondo o Como sobreviver à Terra da Luz eram frequentes.

Apoiadas umas pelas outras e sentindo-se confortáveis para contestar, as vozes das mulheres vão se fazendo ser ouvidas. Brendda conta que um grupo de quadrinistas participou de uma mesa questionando a deslegitimação da produção das mulheres e das produções independentes. No dia seguinte, muitos autores homens passaram nos estandes para conhecer o que as mulheres estavam produzindo. Mudanças assim vão se mostrando, pouco a pouco, também nas premiações. Todas as categorias do HQMix 2017, por exemplo, tiveram mulheres indicadas e premiadas.

Não é à toa que alguns dos nomes mais famosos do Brasil nos quadrinhos hoje são Sirlanney, lovelove6, Lu Cafaggi, negahamburguer, Bianca Pinheiro e tantas outras artistas incríveis. Unidas, mostrando a que vêm e inspirando outras meninas, mulheres avançam e a cena dos quadrinhos cresce como um todo.

“Apesar do pouco reconhecimento, estamos conseguindo abrir espaço para que cada vez mais mulheres façam parte da cena e sejam vistas como profissionais. Nossas produções são tão boas quanto as de autores homens. A gente ainda tem muito a ganhar nos próximos anos”

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